terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

ESTRANHAMENTO FAMILIAR - LEVI DE FREITAS

Estranhamento familiar - Levi d'Freitas



Com um profundo suspiro, acorda atordoado. Revira os bolsos como que à procura de algo que não sabe o que é. Lava o rosto. Senta-se à cadeira ao lado da cama. Ergue os olhos e percebe aquele que será o pivô de seu tormento por alguns instantes.

- Mas, que diabos é isto?

À sua frente, imperiosa, uma caixa escura. Formato quadrilátero, alguns botões.

-O que esta coisa está fazendo aqui?

Segue em direção à peça. Curioso, toca-lhe os botões, o que resulta no acionamento dos mecanismos do estranho instrumento. Neste momento, luzes acendem, iluminando o escuro recinto. Assusta-se ao ver e ouvir rostos e vozes desconhecidos.

-Com quem estão falando? Comigo!? Saiam daí para conversarmos!

Em vão tocou aquela mística tela, quando buscava sentir a rosada face da bela moça que falava de dentro da agora colorida caixa imponente, que mais parecia um ídolo religioso, dado seu posicionamento estrategicamente ao centro do quarto.

-Ora, parem de falar e me ouçam!

Irritado, apertava os botões e espantava-se cada vez mais com a velocidade com que pessoas iam e vinham. E assim, ouviu (e viu) um saliente homem dizer:

“-Bem vindos ao mundo da televisão!”

Ao que pensou:

-Ora, de que me serve estar em um mundo que vejo, ouço, mas no qual não tenho vez nem voz, com o qual não interajo? Este é teu fim, caixa mágica!

E puxou o fio da tomada.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008

O JULGAMENTO(Continuação...) - CARLOS EDUARDO SAMPAIO

Diante daquelas últimas palavras, o tribunal não se conteve: pessoas ligadas ao réu, levantaram gritando que aquilo era um absurdo para nossa época; que por muito mais do que isso gente muito mais nociva à sociedade tinha sido condenada a uma pena mais leve. Até o juiz Metelo Nepos inclinou-se para frente para ter certeza de que ouvira bem aquelas palavras. Para o réu Lucius Emilio Vespasiano tudo parecia não fazer mais sentido: fora a cor que desaparecera por completo do seu rosto, a sala ficara de repente silenciosa; o tempo tornou-se mais vagaroso e as idéias vinham agora de ecos que ressoavam na sua cabeça e sumiam sem deixar qualquer sinal de presença. Não conseguia dar seqüência a nenhum pensamento lógico; quando uma idéia dá sentido a outra anterior e assim por diante. Nada! Lucius Emilio era uma pessoa ainda relativamente jovem. Ainda cedo entraria para uma agremiação de jovens literatos na sua cidade natal de Tresímeno. A turma dessa agremiação não parava de escandalizar a gente simples daquela cidade com todos os tipos de excessos. Bebidas, defloração de menores, rituais pagãos; se consideravam mesmo epicuristas e levavam a fundo todos os preceitos desse velho filósofo grego. Contudo, achava normal todos aqueles atos e legítima a vontade de chocar o mundo com seu péssimo gosto de jovem vaidoso e pomposo. Seus versos eram repudiados por todos os senhores que tivessem um bom discernimento dentre os inúmeros e variados tipos de literatura produzida na cidade de Tresímeno. Mas o julgamento desses perfeitos idiotas da velha escola Cicerana, não significava nada para ele e seu obscuro propósito de ver seus textos brilhando nas grandes revistas da capital Hélos...

sábado, 9 de fevereiro de 2008

O JULGAMENTO - CARLOS EDUARDO SAMPAIO

E então o barulho do martelo descendo por três vezes naquele pedaço de madeira retangular, fez-se imponente; uma voz grave e firme ecoou com força pela sala, chegando de fato a estabelecer um significativo silêncio.

- Queira o advogado de acusação continuar a sua linha de raciocínio – falou o juiz Metelo Nepos, já bastante irritado com a interferência de alguns mais exaltados.

- Como eu ia dizendo Meritíssimo antes de ser drasticamente interrompido, o réu, que no pavonear típico de seu caráter, na total falta de tato para sua insignificância literária, gaba-se com escritos, que aos olhos de todo mundo, não passam de escritos menores; parco em cultura e idéias. Eu mesmo tenho contato com grandes e notáveis escritores da nossa geração, mas não vi nenhum Meritíssimo, nenhum que se mostrasse tão petulante e arrogante como o réu que aqui está sentado diante de nós. Desvirtuar nossos tão sagrados valores, altivos na sua histórica tradição, é o que pretende o réu quando coloca importância a sentimentos mesquinhos de sua gente e seu povo.

Nesse instante os olhos de impetuosidade do advogado de acusação, se dirigiram para o canto da sala do tribunal onde ficava o júri. O júri era composto pelos mais respeitáveis e aristocráticos exemplares das letras da cidade de Hélos. O advogado de acusação de nome Gaius Julius - também ele um intelectual e respeitável entre seus pares literatos - sabia que para tão honrado júri, era inevitável que seguisse uma linha de acusação que invocasse toda a tradição e o bom gosto tão bem conhecidos e praticados por esses distintos senhores. E continuou na sua hábil explanação:

- Nega diante desses admiráveis senhores que não evocou toda sua vaidade quando escreveste aquele amontoado de palavras, uma atrás da outra, a que chamou de literatura? Negará que abusou de nossa tão sagrada paciência quando publicou, em desatino desvairado de arrivista, textos de duvidoso valor em uma revista importante da nossa cidade? A essa falta de imprudência e a essa falta de autocrítica, que o faz pensar ser melhor do que realmente é eu peço a mais alta pena da nossa jurisprudência: a pena de morte!.....

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

AS CINZAS DO CONFETE - LEVI DE FREITAS

As cinzas do confete - Levi d'Freitas


Acabou-se a serpentina.
O rei momo já se retirou.
A avenida, o sol ilumina,
meu confete acabou.

A música, antes incansável,
onde pois se escondeu?
A alegria de um povo inteiro
guardou-se ou a lua comeu?

Tantos risos, tantos beijos
tudo que tanto bem fazia.
Tantos corpos, tantos seios
onde estãos as fantasias?

Meu Brasil, a quem fazes mal?
tão lisonjeiro a todos acolheu
Passou-se, porém, o carnaval
e quem ficou? Apenas eu.

Vede teu rosto,
empapuçado de folia
Agora, vede teu povo:
à mesa da festa, não comia.

E acabou-se mais um carnaval.
E a alegria?
Cingida por cinzas, chegou ao final.

quarta-feira, 30 de janeiro de 2008

O APRENDIZ - LEVI DE FREITAS

*PARENTAL ADVISORY:

Não me responsabilizo pelo choque que possa causar este texto. Publico-o a pedidos, apenas. Tenebroso sei que é. Chocante também. Quem possuir ainda inocência e pureza em seu coração, afaste-se dele. Leia os outros textos que aqui figuram.


"Sem amores, sem rancores. Sem dúvidas e sem temores."



O APRENDIZ (OU ODE AO NÃO-AMOR) - LEVI D'FREITAS

O amor não existe. É pura ilusão.

Amor só de pai e mãe. De Deus, a compaixão.

Este foi na vida teu mais difícil aprendizado:

Nunca diga 'eu te amo', um dia você vai ser acusado

De ter dito a frase errada para a pessoa certa

Aquela que vai fechar a porta quer você deixou aberta.

Vai sair e dar adeus, vai te ferir de morte.

Mas você só vai morrer se tiver muita sorte.

Vai te fazer beber para esquecer a solidão.

Vai transformar em cinzas de cigarro cada pedaço
Do teu coração.



De uma mesa de um bar qualquer... Com um copo de cerveja na mão. Ao lado, jazem os que não resistiram aos efeitos do álcool. Da boca de quem vos escreve ouviu-se o que hoje é esta poesia.

Da dor, brotou a minha flor.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2008

SAUDADES... - JANAÍNA BANDEIRA

Saudades de você, meu amigo. Tanta coisa que passamos juntos, né? Lembro quando você chegou lá em casa, tão pequenino e alegre. Mudou nossa vida, principalmente a da Fernandinha, que era apaixonada por você. Passou férias na praia, com todas as regalias possíveis, chegando até a comer churrasco e roubar os sanduíches das crianças. Levava uma bronca, mas depois vinha me lamber com a cara mais lavada do mundo. Desceu as dunas correndo atrás dos meninos que deslizavam de esquibunda... Saudades daquele tempo...
Hoje já temos um novo membro na família, mas o sonho de consumo dela é um gatinho. Deus me livre! Quem tem gato passa a ser escravo dele. Nunca será amigo como o cachorro. Deixa só seu vizinho oferecer um prato de guloseimas pra ver o que ele faz com você. Certamente lhe virará as costas e partirá em busca do "desejo proibido". Dia desses estava arrumando os brinquedos das crianças e encontrei seu lobinho de borracha, aquele seu brinquedinho predileto. Como chorei... Lembrei de tudo que você significou para a minha família. Lembrei do dia em que não pude mais cuidar de você por me descobrir grávida e com grande risco de contrair toxoplasmose. Acho que sua tristeza foi tão grande, que depois disso adoeceu de forma violenta e nos deixou. Sinto sua falta, Bob. Queria poder sentir mais uma vez sua lambida sem vergonha... Nem que fosse só mais uma vez...

sexta-feira, 11 de janeiro de 2008

FAVORECIMENTO ILÍCITO (PARTE I) - LEVI DE FREITAS

FAVORECIMENTO ILÍCITO - LEVI D'FREITAS

Passo apressado por entre as sacoleiras e boxes abarrotados de réplicas de marcas famosas. Ao encalço, o primo do interior.

-Esta calça está boa! Quanto custa?

-20 reais, amigo – responde o homem de meia-idade, demonstrando interesse naquela venda.

-Não está bom o preço. Vi mais à frente modelo semelhante a 17 reais. – Intervenho, a fim de facilitar a economia de meu parente.

-A este seu preço não posso vender.

Cerra a face e nos vira as costas.

-Ora! Este lugar está cheio de vendedores mais simpáticos e flexíveis. Caminhemos, meu primo! Você vai voltar com as sacolas cheias para sua cidade!

Passamos a manhã a rodar a praça e encher sacolas que farão a alegria de muitos na cidadezinha de onde viera o meu amigo.

-São os presentes de Natal. – dizia.

Ao fim da manhã, ponho-o no ônibus que o levou para casa. Radiante estava, pois aprendera a arte da ‘pechincha’...

-Aprendera com um profissional! – gabava-me.

Telefono para casa e aviso todos: o primo já retornara ao seu lar.

-Mamãe, ficarei mais um pouco por aqui. Tenho negócios a resolver.

Ora, quem me dera ter retornado no ônibus que passara logo em seguida... O ônibus em que pus aquela velhinha que estava na parada, juntamente com sua muamba que encheria duas vagas em um trem...

-Obrigada, meu filho! Deus lhe abençoe! – agradeceu-me a senhora de idade avançada, ao sentar-se apoiando em meus braços e na velha bengala. Em seguida, aos seus pés, pus as pesadíssimas sacolas que ainda não entendi como ela conseguira carregar até a parada seletiva dos veículos comunitários.

Retorno ao que chamei de ‘reino do comércio alternativo’. Lá chegando, uma ligação:

-Irmão, estou por aqui também. Encontre-me na loja de esportes, vamos fazer negócios juntos esta tarde!

Passar a tarde fazendo compras com ele, no meio do ‘mercado alternativo’, sempre foi ótimo, desde a infância. Adorávamos baixar os preços das mercadorias na base da algazarra, e muitas vezes alegar falta de verba e sair rindo dos pobres que contavam com aquela venda. Ah, tempo bom em que eu conseguia me sobressair em relação aos outros... Tempo em que eu era ‘o’ comerciante...

-Querido irmão, quero comprar telefones celulares de forma não-convencional...

-Aonde você quer ir? – questiona-me, apesar de estar entendendo, no que sorri no canto da boca, já demonstrando a velha inclinação para a malemolente falação que iríamos ter com os vendedores a tarde inteira...

-Vamos ao ‘reino do comércio ilícito’, meu irmão!

[ CONTINUA. OU NÃO... O FINAL, VOCÊ DECIDE! ]

[ USEM OS COMENTÁRIOS PARA SOLICITAR A PARTE II DESTE CONTO. SOMENTE COM 10 (DEZ) POSTAGENS A CONTINUAÇÃO SERÁ LIBERADA PELO AUTOR. ]